A bem da verdade

A obrigação de quem se propõe a informar é fornecer dados
completos e exatos, mas não é o que acontece sempre

por Fabrício Samahá

Fabrício Samahá, editorUma preocupação minha e que sempre reforço junto à equipe e aos colaboradores do BCWS é que é preciso informar com precisão. Não basta usar bom português, efetuar diagramações corretas, se o conteúdo, a informação, é impreciso.

Espanta-me cada vez que leio, em uma publicação especializada em veículos — faz parte da atividade de qualquer editor ler o que os outros escrevem —, suspensões que são exatamente do mesmo tipo descritas de maneira diferente, só porque cada fabricante encontra uma maneira de descrevê-las.

Em nome da precisão da informação, eu deveria dizer qual a publicação, mas por questão de ética prefiro não o fazer. Pois bem: se lermos a ficha técnica de um desses testes comparativos, constatamos que cada uma diz como é a suspensão traseira à sua moda. Isso porque o redator, sem ter conhecimento da técnica do automóvel, limita-se a transcrever o que o fabricante diz.

Nisso só há um perdedor: o leitor. Porque essa discrepância se verifica em suspensões exatamente do mesmo tipo, como aquela por eixo de torção com molas helicoidais, a mais comum nos automóveis nacionais. Ele não recebeu a informação correta ao ler aquela revista.

Não consigo deixar de esboçar um leve sorriso quando leio, por exemplo, que a suspensão traseira do Gol por eixo de torção é “interdependente”, palavra pomposa para informar — ou não? — que existe ligação, interdependência, entre os dois lados da suspensão. Não é só: já li não me lembro onde o termo “semi-independente” para o mesmo conceito. Ou seja, é a própria figura da mulher meio-grávida.

Sei que alguns leitores podem torcer o nariz quando alguém do time escreve “plástico reforçado com fibra de vidro” em vez do curto e fácil de pronunciar “fibra”, ao descrever o material da carroceria de um automóvel. Só que tem de ser assim, o nome do material conforme ele é de verdade.

Já falei nisso antes (leia editorial), mas o fato é que o BCWS não reconhece a palavra “montadora” como sinônimo de fábrica. O leitor tem o direito de saber que uma Fiat, Ford, General Motors e Volkswagen — para citar as mais antigas casas automobilísticas nacionais — montam, sim, mas antes desenham, constroem protótipos, desenvolvem-nos, testam-nos, usinam motores e transmissões, montam-nos, estampam a carroceria, armam-nas numa estação robotizada e pintam a carroceria (em instalações grandes e caras). Não é apenas montadora: é fábrica, e com todo o mérito.

Outro caso é o rigor dos dados técnicos, algo levado muito a sério pela equipe. Na recente avaliação da Scénic 1,6 automática, ao elaborar a simulação de desempenho, eu e o consultor Iran Cartaxo percebemos que as relações de marcha e de diferencial fornecidas pela Renault geravam valores (como a velocidade por 1.000 rpm em cada marcha) incompatíveis com o que eu havia percebido ao dirigir a minivan.

Consultado, o fabricante limitou-se a confirmar os dados. Foi preciso insistir para que consultasse sua engenharia que, no último momento, admitiu uma omissão nos números fornecidos que causava a disparidade. Entretanto, publicações que já haviam avaliado o modelo endossaram os números incorretos, sem perceber.

E seu leitor, mais uma vez, saiu perdendo.

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Data de publicação: 1/5/04

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