


O carro passa por
anos passados, quando "nem se imaginava" algum fato, e entra no
túnel de 2009, período de crise da economia -- e da GM



A "luz no fim do
túnel" vem dos faróis do Agile, projeto barato -- e real -- da
filial brasileira que pode ajudar no sonho da recuperação da
matriz |
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Não
é novidade que a General Motors passa por maus bocados há bastante
tempo, nos Estados Unidos e no resto do mundo. Um imenso e misturado
portfólio de marcas dos mais variados segmentos, fazendo uma salada
indigesta que saltava da sul-coreana Daewoo, com seus carrinhos urbanos,
até a anabolizada Hummer, com beberrões utilitários de rua inspirados em
um jipe militar. Apostas em carros que passaram longe do sucesso; mitos;
lançamentos que mais estigmatizaram a marca do que trouxeram lucro;
parcerias com japoneses e italianos; mas acertos também, diga-se, entre
outras megalomanias daquela que foi, um dia, a gigante dos automóveis no
mundo.
Tudo posto na balança, o resultado é uma crise financeira e de
identidade que já dura mais de uma década e que se reflete nos magros
lançamentos da filial brasileira desde a virada do milênio.
Quanto ao Chevrolet Agile... O que se pode fazer com nenhum dinheiro na
mão, a conta negativa no banco, nome sujo na praça, uma dívida gigante
no cartão e os credores batendo na porta? Pega-se tudo o que ainda há na
despensa e tenta-se fazer um bom caldo. Pior ainda: como propagandear um
lançamento que não tem nada de revolucionário, aposta em soluções de
estilo um tanto discutíveis, mecanicamente não inova nem renova e, ainda
por cima, virou arrimo de família com a missão de salvar o clã
brasileiro da bancarrota da matriz? Só uma luz no fim do túnel mesmo.
O filme de lançamento do Agile, exibido no ano passado, era uma
autobiografia da marca. Uma sessão de terapia em uma minuto, no divã da
agência McCann Erickson. Por sinal, repare que o Agile dourado é a
própria gravata, a própria General Motors andando pelas ruas. Ele é a
personificação da "nova" marca, que decidiu renascer dourada após tantas
cores e fases em vários e vários anos de vida — os últimos bem tristes,
por sinal.
"A gente já passou por muita coisa". Assim abre-se a sessão. Uma gravata
dourada cruza uma noite que parece que não vai nunca chegar ao fim.
Semáforos fechados, pontos de ônibus vazios — uma tristeza só. Então
começam as memórias de superação: da inflação, do tetra e do penta da
seleção, da grana emprestada ao FMI, da primazia no biodiesel. E o dia
vai raiando, junto daquele discurso — "tanto tempo atrás, ninguém
imaginava que tal coisa poderia acontecer" — dizendo na entrelinha "veja
como as coisas mudam˜.
Daí, ele joga a bola pra você. Diga com sinceridade: você imaginava que
a GM sairia da crise? Pois então, veja como as coisas mudam... Eis que a
gravatona dourada sai do túnel e, triunfante, vê a luz. No auge da crise
financeira mundial, da GM quase encostando lá no fundo do poço, eis que
surge a luz, escorada num "novo carro". E agora parece que ela não vai
mais embora, porque o motorista engata uma quinta e avança.
"É real. É um sonho". Sem dúvida, é real. Nada mais real que encontrar a
plataforma do Corsa de 1994 e um conjunto mecânico bem conhecido, sem
nada realmente novo — mas era o que havia no armário... E é um sonho,
também. Afinal, o consumidor que compra o Agile sonha mesmo é em ter
alguma coisa do nível do atual Opel Corsa europeu. No fim das contas, o
comercial é honesto e fala bem a verdade: o Agile é real e é um sonho. O
problema é que a gente acorda desse sonho com o carnê na mão e o
estômago roncando.
E nem adianta acreditar no "conte comigo": na verdade, é ela quem conta
com você para perdoar seus erros e ajudá-la a superar essa má fase que
parece não ter fim.
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