Viva o poder da escolha

Nos comerciais do novo Uno, com seu jeito de brincadeira infantil,
a Fiat mostra a liberdade de opções e estimula a colaboração

Texto: Kleber Nogueira - Fotos: reprodução

De três para cinco portas e dali para a multiplicidade de cores: em "Uno Duni Tê", modelos virtuais deixam a mensagem: você é quem escolhe

Casa inflável para airbag, catavento para ar-condicionado, e a cidade é concluída em um espírito de colaboração, como a que se vê na internet

Duas décadas e meia depois, a Fiat resolveu lançar um novo modelo de entrada no Brasil. Importou do antigo Uno o nome e toda a mitologia que ele construiu ao longo de mais de 25 anos — vanguarda, riqueza de conceito, praticidade, eficiência. Até porque, não fosse o desenho retilíneo datado e a falta dos recentes avanços em segurança, o velho Uno ainda seria um carro conceitualmente contemporâneo. Para lançar o novo Uno, a Fiat se questionou: e agora, qual é a voga da vez? A internet e seus ambientes colaborativos.

Nossa sociedade vive a febre da “colaboração” propiciada pelo avanço da tecnologia da grande rede. Tudo é feito a milhares de mãos e só a um dedo no mouse. Um camarada dá sua opinião num blog e minutos depois já há centenas de comentários desconstruindo a opinião dele. A própria Fiat criou o Mio, um carro-conceito que foi construído pelas sugestões dos internautas. Embarcando nessa febre, a campanha publicitária do novo Uno 2011 apela para a antítese da mesmice da propaganda de automóvel, tornando o carro tão gostoso de ter quanto um brinquedo ou um amuleto, uma espécie de cubo mágico que cada consumidor gira e configura como quer.

Aliás, como seria se você pudesse construir as coisas exatamente do modo que deseja? Como seria se você pudesse ver, ao mesmo tempo, todas as combinações possíveis de se fazer com objetos, como se fossem com peças de um Lego? Vivemos num mundo tão quadradinho, tão preto-ou-prata, tão cinco-anos-de-garantia, que nos esquecemos de que um automóvel pode ser, sim, um brinquedo de gente adulta. O novo Uno materializa esse desejo.

A agência LeoBurnett traduziu esse desejo em filmes curiosos, diferentes e gostosos de ver. Em dois deles, a mensagem-chave é a “opção de escolha”, focando uma característica tangível do produto que é a possibilidade de personalização. Ambos usam figuras visuais do universo infantil, como o excesso de cores e os elementos lúdicos com cenários que parecem brinquedos. O objetivo é associar a imagem do carro a de um brinquedo mesmo — pouco sério, divertido, até. De forma inconsciente, isso traz à tona a criança frustrada que vive lá dentro de quem assiste. Isso estimula um desejo irreprimível de posse, igual ao da criança que se apaixona de imediato pelo brinquedo colorido e chamativo da vitrine e tem o intenso desejo de possuí-lo. Você sente vontade de comprar.

No filme Uno Duni Tê — é isso mesmo, “Uno” e não “uni” — a velha brincadeira de criança onde alguém escolhe alguma coisa vira uma viagem lisérgica. Pura psicodelia. Um Uno de três portas (versão ainda não apresentada oficialmente que aparece quase como um código oculto) branco aparece num fundo vazio, como uma folha branca de papel. De repente começa uma chuva de quadrados, elemento que é referência no estilo do carro. Esses quadrados multicoloridos começam a construir cenários diversos — cidade, praia, campo — e o carro muda de cor e acessórios sem parar.

É uma loucura visual, com várias tomadas de câmera sobre o carro, que se multiplica, divide, junta, separa... uma viagem mesmo. A trilha sonora é eletrônica, bate-estaca. No fim, depois do turbilhão de opções, o consumidor escolhe uma combinação e leva seu carro. Curiosidade: todos os carros são modelos virtuais em três dimensões.

Agora, é no filme Cidade Mágica que o conceito de colaboração da internet se concretiza na metáfora criada na história. Pessoas chegam a bordo de três Unos a um galpão vazio. Então começam, juntas, a realizar a ideia de como seria se uma cidade pudesse ser personalizada — assim como o Uno. Da primeira casa erguida saem Unos da garagem com mais pessoas a bordo, que começam a erguer mais elementos da cidade. Uma personaliza a parede — referência aos jogos de adesivos disponíveis para o modelo —, o ar-condicionado vira um gira-gira e os cataventos, as três janelinhas da casa equivalem às três aberturas da grade dianteira. A casa inflável de brinquedo faz surgir o lembrete de que ele pode ter bolsas infláveis.

Brinquedos que fazem coro com todas as inferências infantis do filme, que compara a vida nessa “cidade mágica” a um parque de diversões, começando pela musiquinha do fundo e chegando aos três balões coloridos da menina que formam o nome: u-n-o.

Dá para dizer que os filmes passam o recado de forma eficaz. Você se sente em uma papelaria: não dá pra comparar uma caneta Bic com aquela infinidade de canetas japonesas multicoloridas, cuidadosamente desenhadas e com detalhes mil. O apelo do Uno é igual. Só desagrada a frequente técnica marota de aumentar o diâmetro das rodas dos carros no computador, parecendo que eles são muito mais robustos e esportivos na TV do que na realidade. Isso ocorre em todas as peças da campanha e se assemelha ao truque da foto na caixa do cereal.

Se o produto e o mercado evoluem, alguns velhos hábitos como esse se mantêm, assim como o velho Uno, cruzando as gerações.

Uno duni tê Cidade Mágica

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Data de publicação: 3/7/10

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