Classic e a "nova classe média"

Bonitos comerciais como os do pequeno sedã Chevrolet
podem conter muitas mensagens que nem todos sabem ver

Texto: Kleber Nogueira - Fotos: reprodução

Ter um carro significa muito mais que se mover de um lado a outro sobre rodas tracionadas por um motor. Possuir um automóvel pode trazer inúmeros significados. Chegue a uma festa a bordo de um sedã de luxo e depois de um hatch do segmento de entrada: qual a percepção acompanhada da sua chegada? Essa simbologia da sociedade em que vivemos é exatamente o que a publicidade de hoje explora.

No mundo atual, de consumo desenfreado e de escassas inovações, em pouco tempo as novidades se banalizam. Ter "algo exclusivo" traz reconhecimento apenas quando esse algo ainda é exclusivo. Quando todos passam a ter o mesmo bem, ele já não traz reconhecimento. Portanto, não basta "ter um carro": a publicidade prega que seu carro deve ser especial, ter algo que diga ao mundo quem você é. Entre um cigarro Marlboro e um Hollywood, entre a Coca-Cola e a Pepsi, há um degrau bem maior que uma sutil diferença de sabor — uma diferença criada pela propaganda.

Ela busca manipular uma camada profunda da mente, que nos faz tomar as decisões de forma inconsciente, desejando possuir um produto em detrimento do outro ou sendo simpático a uma marca e não a outra. Alguns idolatram carros Volkswagen, outros os da Fiat, alguns odeiam Fords ou Chevrolets. Mas por quê? A maioria dessas pessoas talvez nunca tenha tido carros de uma marca nem de outra.

Essa coisa espetacular que é nossa mente, em companhia da genial sagacidade dos publicitários e profissionais de marketing, é o que vamos debater nesta coluna. Como nossa paixão está nos automóveis, vamos dissecar as peças publicitárias das marcas e seus modelos, traduzindo em palavras o que os criativos querem nos dizer, subliminarmente, com frases curtas, imagens fortes e motes vagos.

Kleber Nogueira
Publicitário

   

A noiva dá tchau às crianças da rua e se emociona quando sabe que ganhou o carro; no fim, aproveita-se a oportunidade de atrair o cliente

No filme do vestibulando, os passos da vida ligam-se às marchas do carro; o Vectra na última cena parece ser uma propaganda subliminar

A Chevrolet lançou em abril o Classic 2011 com frente e traseira remodelados. A empresa anunciou que o veículo seria direcionado à "nova classe média". De prático, nada mudou no Classic, já que o carro é o mesmo na mecânica e a alteração de estilo foi muito sutil — é impossível uma pessoa passar a amar ou odiar o modelo por causa da modificação. O posicionamento de preços, tanto com relação ao portfólio da marca quanto aos concorrentes do mercado, também não mudou. O que mudou foi apenas o discurso. E é justamente esta mudança de discurso, chamado de posicionamento de produto, que reflete toda a campanha publicitária de lançamento da linha 2011.

Em marketing, é dito "posicionamento" como determinada marca ou produto deseja ser reconhecido(a) pelo mercado. Num mundo abarrotado de informações por todos os lados, os produtos precisam "decidir quem eles querem ser" a fim de conquistar um pedacinho da mente do consumidor. A grande luta é ser lembrado. Quanto mais simples e direto for seu recado, mais fácil você será lembrado. O Classic não tinha um discurso próprio faz tempo... Desde que virou sedã de entrada da Chevrolet, o carrinho não tinha nenhum posicionamento ideológico, a não ser o da mera racionalidade — aquele carro que você decide comprar no ponto de venda. Você busca um modelo barato, econômico, que de repente pode ter um bom porta-malas e tal... Mas duvido que você pensava "quero um Classic".

Agora não. Com o apoio dos criativos da agência McCann Erickson, a Chevrolet faz o Classic renascer com uma nova ideia: o carro da "nova classe média". O que vem a ser "nova classe média"? Claro que você acompanha nos noticiários que a chamada classe C vem crescendo cada vez mais no Brasil. Essa classe é formada por aqueles brasileiros comuns, com renda média doméstica de até R$ 2.500, que estão conhecendo o prazer do mercado de consumo graças ao fácil acesso ao crédito. E a Chevrolet não quer ficar de fora desse imenso mercado que, em 2007, já representava quase 50% da população. Desafio em mãos, lá se vão os criativos da agência pensar em formas de transformar um carro já antigo — com uma década e meia de mercado praticamente sem alterações — em um objeto de desejo dessa fatia do mercado. Para posicionar o produto na mente do consumidor, eles trabalham basicamente com três ferramentas: a cultura, a emoção e a emulação.

A cultura do brasileiro de classe média é bem explorada nos dois filmes, de um minuto cada, que foram veiculados na TV. Um retrata um pai levando a filha vestida de noiva ao casamento — a bordo de um Classic, claro. No outro, o mesmo pai leva o filho ao exame vestibular. As duas cenas retratam duas conquistas muito peculiares do brasileiro de classe média: formar e casar os filhos. Há algo mais trivial que isso?

Esse mesmo é o objetivo. Quando o brasileiro de classe média assiste aos filmes, ele se sente de alguma forma a bordo daquele Classic, falando com a filha sobre as conquistas da vida, com nostalgia. A filha dá tchauzinho às crianças da rua pela janela... Ou dando aquele apoio ao filho, instantes antes de uma prova difícil para tentar entrar na faculdade. A esse ato inconsciente, de nos colocarmos no lugar de outrem, dá-se o nome de emulação. As frases melosas ("Ah, pai, não me faz chorar que eu borro a maquiagem") ou a analogia feita entre "os passos da vida" e "as marchas do carro", no segundo filme, fazem o espectador se emocionar e sentir o carro inserido em um contexto de uma conquista tão importante quanto o casamento da filha ou o vestibular do filho. Esta identificação entre a situação e o produto é que fica gravada na mente do consumidor. Então, o filme se encerra com uma assinatura: "Sua vida, suas conquistas, seu sedã". Isso simplesmente bate o martelo em uma situação na qual a emoção abre o canal mental e aquela cena é gravada no inconsciente do espectador.

Sem perceber, você se deixa envolver por rápidos flashes que mostram detalhes do produto, como os novos faróis, lanternas traseiras e o novo repetidor lateral das luzes de direção. A vontade é despertada pelo ambiente emocional, mas, como a função da campanha publicitária é estimular a venda, logo aparece a mensagem "20% de entrada e o saldo em 60 parcelas decrescentes"... Sim, o foco é mesmo a classe média.

Nesse momento não importam as características do produto, e sim com o que ele se identifica. O Classic 2011 parece estar em busca de novos donos. E parece haver uma função subliminar no fato de que Vectras da geração passada aparecem em dois momentos: num canto do filme do vestibular, enquanto o Classic surge de frente, e estacionado à esquerda na cena final de ambos os comerciais. Quem não se lembra de quando o Vectra significava um sonho de consumo?

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Data de publicação: 8/5/10

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