Detector de mentiras

Um filtro de informações seria ótima ferramenta, pelo
que se publica de inverdades e fatos distorcidos

por Fabrício Samahá

Fabrício Samahá, editorOs programas que gerenciam e-mail ganham recursos a passos largos. Filtram por assunto ou remetente, bloqueiam mensagens indesejadas, fazem correção ortográfica. Mas seria ideal se um fabricante desses sistemas conseguisse aplicar um recurso que anda fazendo falta: um detector de mentiras.

Brincadeiras à parte, o fato é que anda complicado confiar em tudo o que se lê — mesmo quando a fonte é considerada a mais fidedigna possível, como um fabricante que envia informações sobre seus automóveis. Em busca de títulos e primazias, alguns deles forçam a barra e escrevem coisas que, se não chegam a mentiras, no mínimo dão margem a boas discussões. Selecionei alguns exemplos para que o leitor perceba como anda essa situação.

> Seis ou oito? Na recente apresentação do Mitsubishi Outlander à imprensa, uma surpresa: o importador informa oito bolsas infláveis, embora só se possam contar seis (duas frontais, duas laterais dianteiras e duas cortinas). A explicação é que as cortinas valeriam por quatro, pois protegem tal número de ocupantes em caso de disparo. Nesse caso, que tal considerar a bolsa frontal e a lateral de cada ocupante como uma só? Alega-se ainda que a Hyundai e a Land Rover vinham fazendo contas da mesma forma, deixando a Mitsubishi em aparente desvantagem aos olhos do consumidor. O que se conclui é que a empresa preferiu juntar-se aos mentirosos para obter vantagem desleal sobre os concorrentes honestos.

> Primazias: quem não gosta de alardear ter sido o pioneiro no mundo em uma tecnologia ou recurso? O problema é quando essa vontade deixa o bom-senso de lado e faz esquecer que existe o resto do planeta. Foi o caso da General Motors ao anunciar, mais de uma vez, que "o Vectra é o primeiro automóvel no mundo a oferecer um motor 'flex fuel' com capacidade volumétrica acima de dois litros". A GM finge desconhecer que motores flexíveis existem nos Estados Unidos desde 1993, quando a Ford lançou o Taurus FFV com um V6 de 3,0 litros. Antes disso, em 2004, divulgou que a Zafira seria o primeiro modelo flexível no mundo com câmbio automático — tipo de caixa que domina o mercado americano.

> Stock Car: para muitos já é uma vergonha que carros fantasiados de Volkswagen Bora, Mitsubishi Lancer, Astra e Peugeot 307 corram na Stock Car com motor V8 de 5,7 litros da GM, entre vários componentes comuns a todos os competidores, fato talvez único no mundo (no exterior é comum o uso de uma "bolha" sobre chassi tubular, com mecânica diferente da usada nas ruas, mas que seja do fabricante ou grupo que o carro representa). Mais grave, porém, é a VW anunciar à imprensa que o Bora lidera a categoria — existe Bora com motor GM? — e a Mitsubishi destacar aos quatro ventos, como no fim do ano passado, que havia sido a campeã da modalidade.

A falta de argumentos fica evidente na citação de um piloto divulgada pela VW: "É a minha segunda prova com o Bora e a aerodinâmica dele é ótima". Como se não bastasse a mecânica comum aos concorrentes, a própria "aerodinâmica do Bora" independe da VW — é desenvolvida no túnel de vento da USP de São Carlos pelos organizadores da Stock Car, de maneira a evitar que pequenas diferenças favoreçam uma ou outra bolha.

> Juro zero: quando se trata de fisgar o consumidor, parece valer tudo. "Juro zero" não chega a ser mentira quando o preço sugerido do carro (ou qualquer outro bem) é, realmente, dividido em parcelas sem acréscimo. Mas é uma ilusão: se o veículo é vendido a prazo sem juros, com toda a certeza é possível obter descontos polpudos na compra à vista. Uma variação desse golpe é anunciar um preço promocional muito atraente que, na verdade, vale apenas para venda a prazo — acrescido, é claro, de juros acima da média do mercado. Sugere-se ao comprador pesquisar bem antes de se entusiasmar por essas formas de "almoço grátis".

> Geração: esta já foi amplamente discutida no Editorial da edição n° 208, por ocasião do lançamento do Gol "Geração 4". Desde então, a mentira foi repetida com o Celta 2007 e pelo jeito não será abandonada pelos departamentos de marketing tão cedo. Curiosamente, como já comentei aqui, quando a geração é realmente nova o fabricante evita usar esse termo, prova de que a palavra se desgastou pelo uso indevido.

> Concorrentes: cada fabricante tem o direito de considerar oponentes quem ele quiser, mas a coisa às vezes cai no ridículo. A GM o fez mais de uma vez. No material do Omega atual, relacionou como concorrentes três carros de prestígio muito superior e que custam mais que o dobro dele (BMW Série 5, Mercedes-Benz Classe E e Audi A6) e outro de preço próximo e bem menor prestígio (Kia Opirus). Nenhuma citação a VW Passat, Toyota Camry ou Honda Accord, que competem na mesma faixa de preço. Já no material de lançamento do Vectra atual, confusão ainda maior: extremos como Santana e Audi A4 foram colocados na mesma categoria, como se o consumidor escolhesse um carro apenas pelo tamanho da vaga na garagem...

> Porta-malas: há pouco a Citroën apresentou o C4 Pallas e informou que a capacidade de bagagem era de 580 litros. Toda a imprensa passou a informação adiante, menos o Best Cars: um acesso ao site da marca na Argentina bastou para confirmar que é de 513 litros. Da mesma forma, o catálogo suíço Automobil Revue, que traz dados técnicos de todos os carros do mundo, aponta os mesmos 513 l para a versão chinesa do modelo, o C-Triomphe. Os 580 l são provavelmente a capacidade de água, como os fantasiosos 623 l do Peugeot 307 Sedan (506 l na verdade).

Para encerrar, uma para quem tem pelo menos 55 anos: quando a Vemag lançou o freio a disco dianteiro para o Fissore, pelos idos de 1965, a principal vantagem apregoada era de que "freio a disco não dá fading", a conhecida e temível perda de ação por superaquecimento. "Uma deslavada mentira", como diz o colunista Bob Sharp, então com 22 anos, pois freio a disco também dá fading, e como. Quanto mais os não-ventilados da época.

Precisamos mesmo de um bom detector de mentiras em nossos programas de e-mail. Enquanto essa ferramenta não é criada, pode contar com o Best Cars para filtrar as informações antes que elas cheguem a você.

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Data de publicação: 7/7/07

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