O vírus antigomobilista aeternus
Os
olhos brilham quando o assunto é mencionado, |
Estas são usualmente vinculadas a temores uxórios -- as simplórias ameaças domésticas do tipo ou eles, ou eu!; ou através da síndrome de algibeira -- as famosas panes de bolso, associadas às crises e planos econômicos; ou ainda a decepções gregárias -- observadas quando os clubes da especialidade caem em imobilidade profunda. Não se conhecem as formas de contágio com o vírus antigomobilista aeternus, mas seus sintomas são claros e especiais. Fisiologicamente nota-se um olhar baço, gazo, toda vez que o tema veículos antigos é mencionado. Comportamentalmente o paciente sofre modificação de hábitos -- começa a fazer caminhos que passem por oficinas, troca a raquete de tênis e o clube dos sábados por uma incontrolada rota de visitas a outros indivíduos igualmente contaminados. Alguns adotam postura acadêmica, com livros e vídeos sobre o tema. Outros absorvem informações através de contatos com gente infectada há mais tempo. O contágio com outros debilitados incrementa a ação do vírus.
Evidencia-se o estágio crônico e sem volta quando o já doente chama a família à garagem de onde foi retirado o automóvel novo e em seu lugar há um veículo velho, esquisito, mal conservado, e o definitivamente contaminado vira-se à família, olhos infantilmente brilhantes e declara: "Não é formidável?" Será caso grave, duradouro, terminal. Roberto Nasser é doutor em antigomobilismo, pesquisador inefável, e dirige seus trabalhos em direção contrária à cura, mas pelo aprofundamento da vivência e disseminação do vírus |
Quem se der ao trabalho de um pequeno raciocínio a respeito do reduzido universo dos veículos antigos no Brasil encontrará várias explicações, embora a linha básica que as una seja a de uma sólida e resistente ignorância manifesta em diversas ocasiões. Começa com o despreparo dos mecânicos que não conseguiam reparar os veículos mecanicamente mais elaborados, condenando-os ao sacrifício do transplante de peças ou a uma vida curta encerrada em ferros-velhos. Passa pelos usuários, cuja cultura automobilística era absolutamente descompromissada com marcas e origens. Saindo deste varejo chega à característica nacional do desapego ao passado, aos referenciais do tempo. Se isto é uma acomodação ou se é uma conseqüência do pensamento de um povo sempre disposto a aplaudir a novidade do conquistador, desmerecendo as marcas e sinais brasileiros, a dúvida será de caráter acadêmico, entre a história e a sociologia.
Mas o fato é que esta despreocupação em conservar os marcos do passado é característica nacional e não apenas omissão, despreparo ou inação dos funcionários públicos que ocupam os setores encarregados da preservação cultural. As razões são profundas e passam pela ignorância dos contribuintes que não cobram movimento de preservação, dos políticos que não destinam verba à cultura, e posturas de governo de quem nós, contribuintes e eleitores, não cobramos ações corretas. Neste processo nefasto que forçou o desaparecimento rápido dos veículos mais refinados e tecnologicamente mais elaborados, fazendo sobreviver apenas os de simplicidade mecânica e consequentemente de menor relevo como referência da história, dos costumes e da tecnologia, há ainda um fator perverso, eticamente muito mais condenável. É a falsa sabedoria, mais nefasta que a ignorância, e é o que vem sendo praticada pelos brasileiros que exportavam os veículos antigos. Digo exportavam porque houve um espaço de tempo em que o país ficou sem uma legislação que impedisse a saída de veículos antigos -- uma boa parte da coleção de Roberto Lee, que era a pioneira e mais destacada, foi enviada ao exterior, assim como outros veículos de relevo. Então o Ministério do Desenvolvimento, através do Decex, vedou a expedição de documentos autorizativos, enquanto estuda legislação que lhes impeça a saída. Isto impedirá o saque aos bens culturais e permitirá que tanto os veículos estrangeiros quanto os nacionais, que começam a se tornar objeto de interesse histórico e cultural, fiquem no Brasil. Se você quer ter os
prazeres da propriedade de um veículo antigo, e está
aberto a conselho, compre um nacional. Escolha um de boa
referência, construção, solidez. Para seu convencimento, procure pelo que o mercado distingue melhor, as versões mais desejadas e valorizadas. Assim, se você elegeu um Interlagos, os Berlinetta tem melhor aceitação. Dos Simca, Rallyes e Presidences puxam a fila. De Aeros, opte pelo Itamaraty. Em Vemags, os Fissores. Claro que nada desmerece um Interlagos conversível, ou o Aero em si, os sólidos DKW Belcar ou Vemaguet. Você sabe, há o exemplo dado pela Constituição -- todos são iguais perante a lei --, mas você conhece alguns que são mais iguais que os outros... Se a sua opção é mais moderna, a segunda geração da indústria automobilística brasileira trouxe produtos mais atualizados -- Galaxie, Dodge, Volkswagen, Corcel, Opala -- e capazes de restauração e utilização mais fácil. Conselho final. Certos exemplares exigem a cautela de saber se você acha os componentes de reposição no momento da compra do carro. Quebrou, acabou -- como os primeiros nacionais com injeção eletrônica e a caixa de marchas automática do Del Rey. Escolha o carro, localize os reparos, compre-os em duplicata, e depois compre o automóvel. Continua |
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Correspondência para o autor: rnasser@mymail.com.br