Trabalho, não: aventura!

Um tanto atrasada diante da concorrente direta, a Volkswagen
busca para o Saveiro a imagem de versatilidade para o lazer

Texto: Kleber Nogueira - Fotos: reprodução

No filme "La Fortuna", o milho despejado no vulcão -- levado até ele por um grupo de Saveiros, é claro -- faz chover pipoca na pequena cidade

De sofá a bicicleta, de moto a pedra, cabe tudo no Saveiro em "Trocas"; note a transição de Trooper estendido para básico em uma das cenas

São vários os fatores que determinam qual será o direcionamento da campanha publicitária de um veículo. Alguns têm relação com o próprio produto, como uma tecnologia específica ou um novo método de produção. Outros na maioria das vezes relacionam-se com o mercado, como concorrência e necessidade de reposicionar o produto em outro segmento.

O caso do Volkswagen Saveiro é bem típico do segundo time. Em vias práticas, picapes são veículos destinados a usos predominantemente comerciais, ou pelo menos foram projetados com essa finalidade. No entanto, com a dinâmica do mercado e a mudança da "maré dos desejos" dos consumidores, esses utilitários foram ganhando configurações que satisfazem mais às necessidades de lazer, aparência, estilo de vida do que às necessidades do trabalho. Assim é com quase todos os veículos e produtos que são objetos de desejo, com alto valor de imagem.

O Saveiro foi vítima de um truque mercadológico muito bem sucedido, imposto pelo concorrente Fiat Strada. A marca italiana tem muita habilidade em traduzir aqueles desejos tácitos dos consumidores, transformando-os em produtos rapidamente. O Strada, desde que foi lançado em 1998, ensaiava muito bem sua transformação em veículo com apelo fora de estrada, desde a versão Trekking até o lançamento da Adventure, em 2001. Já a Volkswagen com o Saveiro demorou — e muito — a entender que o mercado desejava picapes com jeito lameiro, não mais veículos de carga ou esportivos. O recado do consumidor foi claro, pela liderança em vendas do Strada na última década.

A proposta dos ditos "fora de estrada leves" é perspicaz. Veículos realmente fora de estrada são, por tradição, caros. E o que oferecem em termos técnicos para a proposta raramente é usado nas cidades, como tração integral, diferenciais com bloqueio, redução, distribuição de tração. Muitas pesquisas depois, as fábricas entenderam que os consumidores valorizavam a aparência fora de estrada, não a tecnologia desses veículos. Começaram a surgir automóveis adaptados para a aparência aventureira, sem toda aquela tecnologia — a Palio Adventure de 1999 foi a pioneira no mercado nacional.

O consumidor que compra esse tipo de carro quer ser reconhecido pelo estilo de vida e a personalidade, sem ter que pagar tanto por isso. O que essa atitude fala é: "Sou uma pessoa aventureira, disposta a desafios e amo a natureza". O carro representa isso sem que o dono precise dizer. Basta um simples nome, como EcoSport, Adventure, Cross. Bem claro e direto.

O posicionamento do novo Saveiro, lançado no fim de 2009, é uma mudança de direção na vida do pequeno picape. "Carregada de aventura", assinatura da campanha, determina claramente o que o Saveiro pretende ser. É como se o carro pudesse dizer: "Trabalho? Para quê? Eu quero ser sua companhia nos momentos de aventura e emoção". Criada pela AlmapBBDO, a campanha pretende transformar o Saveiro num carro que deixa de carregar carga e passa a levar bicicletas, caiaques, motos e jet-skis.

O instigante e insólito filme de lançamento é uma ode à aventura. Produzido pela mesma produtora que fez o premiado comercial Cachorro-peixe da SpaceFox, o filme La Fortuna mostra um comboio de Saveiros Trooper subindo uma sinuosa estradinha rumo à boca de um vulcão. As pedras, a fumaceira de pó e o cenário inóspito contribuem para reforçar a imagem de um veículo que topa qualquer aventura. Lá em cima, as caçambas se abrem e despejam a carga de milho no vulcão, quando... uma chuva de pipocas se abate sobre a cidadezinha uruguaia! Criativo.

Num outro filme, Trocas, o picape aparece todo sujo de lama, rodando na terra, com um locutor falando diretamente os atributos do carro, item por item. A gaita solando ao fundo é uma clara referência à vocação country do carro. E lá vai o motorista, um jovem de óculos escuros (você!), trocando de cargas — pega uma, dá outra. Perceba como o Saveiro vai levando embora o que os personagens têm e devolve algo muito mais sugestivo. Para um idoso, ele tira a poltrona e entrega um bote. Para o ciclista cansado, dá a poltrona. Traz a atividade da bicicleta ao motociclista, momento em que a versão Trooper de cabine estendida tem de dar lugar a uma básica com cabine simples, ou a moto não caberia na caçamba.

E sobra até para o cachorro! Sim, o Saveiro é forte o suficiente para carregar uma pedra, se preciso. E o picape não passa em uma rua asfaltada sequer... Nada comparável à verdadeira vida que a maioria das unidades terá no asfalto das cidades. Uma sugestão de consumo.

Nas demais peças da campanha sempre há indícios de "aventura" em detrimento do trabalho, como Saveiros cruzando riachos com caiaques a bordo ou cheios de flechas espetadas, numa alusão aos ataques de índios numa floresta. A mensagem? "Trabalho, não! Eu quero aventura!". Uma mudança tardia de posicionamento, já que na trilha dessa sinuosa estradinha há uma Fiat quilômetros adiante na arte de fingir ser o que não é.

La Fortuna Trocas

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Data de publicação: 3/8/10

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