

A simplicidade domina o
interior, que agora traz econômetro no painel; apesar das falhas de
ergonomia, o bom espaço é um destaque do Mille

A versão Way vem com molduras
nos para-lamas, pneus mais largos e suspensão elevada: um toque jovial
para nosso automóvel mais antigo
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O
interior do Mille é o mesmo adotado na reformulação da linha Uno em
1991, que chegaria à versão de 1,0 litro em 1994. Desde então o painel
mudou apenas no quadro de instrumentos, que agora traz um econômetro que
auxilia o motorista a conduzir o veículo de forma mais econômica — e
funciona bem, pois realmente sugere o uso do
método carga, com menor rotação e maior abertura de acelerador. Em
um interior com 18 anos de idade em um carro de 25, as deficiências em
ergonomia aparecem já no primeiro contato. O rádio está em local muito
baixo e, para seu uso, é necessário curvar o corpo e desviar a atenção
do trânsito. Os comandos do sistema de ventilação ficam um pouco mais
acima e também os difusores de ar, mas — como no Palio — eles ainda são
baixos e não permitem distribuir o ar para a região alta da cabine, como
deve ser no uso de ar-condicionado, embora a eficiência do aparelho seja
de se destacar.
Outra falha de ergonomia está no apoio de braço das portas: seu puxador
fica muito à frente e não na região central da porta, como nos carros
atuais, posição em que a possibilidade de se fazer alavanca para puxar a
porta exige menos força. Ao menos a porta é leve. Mais um problema desse
puxador é que está muito baixo e, se o motorista quiser usá-lo como
apoio de braço, terá de ficar inclinado para o lado da porta. Além
disso, a coluna de direção do Palio adotada em 2002 não ficou na altura
ideal no Mille: nota-se o volante muito alto, o que cansa mais os braços
após algum tempo de direção. De resto, a posição de dirigir é boa, com
destaque à visibilidade excelente para qualquer lado trazida por amplas
janelas e colunas estreitas, típicas de outros tempos.
Mesmo sem ajuste de altura do banco, os mais baixos são beneficiados pela
regulagem em distância que eleva um pouco o assento quando colocado mais
à frente. Os pedais estão em melhor posição que em projetos mais
recentes, como Classic, Celta e Prisma. E, para os fumantes, agrada o
cinzeiro com ótima localização. Um ponto positivo do Mille é o espaço
interno. Um dos pioneiros no uso de teto e bancos mais altos, para que
os ocupantes se sentem mais eretos, impressiona como em um carro de
medidas tão diminutas os passageiros consigam viajar com tanto conforto.
Além disso, seu porta-malas com capacidade de 270 litros está bem
situado entre os dos carros pequenos e o estepe, por vir junto ao motor,
evita tanto a perda de espaço de bagagem quanto a necessidade de
retirá-la para trocar um pneu.
O Mille é um sobrevivente dos anos 80 com toda a dignidade. Seu sucessor
está a caminho e desta vez — ao contrário de 1996, quando o Palio
apareceu com tal proposta — deve ser para valer, pois há novos padrões
de segurança em impactos a caminho para a próxima década. Mas sua
longevidade não pode ser creditada a uma insistência da Fiat em mantê-lo
em produção e sim à demanda do mercado, que pede um carro como ele:
econômico, espaçoso sem ser grande, com bom desempenho e baixos custos
de aquisição e manutenção, a despeito de seus problemas e limitações.
Essa longevidade também pode ser creditada à perspicácia da Fiat em
perceber que tem um excelente produto nas mãos — projetado por ninguém
menos que Giorgetto Giugiaro — e
não o deixar para trás em desenvolvimento.
Por essa conjunção de fatores, o ex-Uno se tornou um produto que atende
bem a uma legião de apreciadores e, por seu êxito, faz a alegria da
Fiat. Nada mais merecido.
Continua |