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Houve um tempo em que se usava a chave para abrir a porta do carro e
se puxava o afogador antes de dar partida ao motor. No trânsito, o
pedal de embreagem era pisado infinitas vezes. A opção ao rádio era
um toca-fitas ou, mais tarde, um toca-CDs com 15 ou 20 músicas por
disco. Na estrada, faróis de longo alcance eram essenciais em
trechos desertos e, de tempos em tempos, era preciso mandar limpar o
carburador.
Esses itens e procedimentos estão extintos ou caminham para a
extinção nos carros atuais. Seja em nome da segurança, da
conveniência ou do controle de emissões poluentes, alguns
equipamentos vão se tornando padrão e outros ganham espaço a cada
dia na preferência do comprador de automóveis. Para verificar como
anda esse processo, selecionei 10 itens em vias de extinção — alguns
mais perto dela, outros mais distantes.
Alavanca de câmbio - Substituí-la por botões em uma caixa
automática não é novidade: a Chrysler fez isso nos Estados Unidos
nos anos 50. Mas a alavanca permaneceu entre nós por muito tempo até
que voltou a perder espaço. O Ferrari 458 Italia traz apenas dois
botões no console, R para ré e Auto para modo automático, enquanto
as trocas manuais são feitas pelos comandos no volante. Modelos da
Jaguar e da Land Rover adotaram um botão giratório no console, e a
Citroën C4 Picasso, uma diminuta alavanca próxima do volante —
sempre com os objetivos de obter visual interno mais "limpo" e
liberar espaço para outras funções ao alcance do motorista.
Alavanca de freio de estacionamento - Outra vítima dos mesmos
fatores acima. Modelos não tão caros, como a citada C4 Picasso e o
VW Tiguan, já trazem botões ou comandos de puxar para o acionamento
elétrico do freio. Como não há ligação mecânica entre o comando e as
rodas, surgem o acionamento e a liberação automáticos conforme a
posição do câmbio e o uso do acelerador.
Carburador - O primeiro da lista a sucumbir, por força das
normas de controle de emissões poluentes: desde 1997, no Brasil, a
injeção eletrônica se tornou necessária para atender aos limites
legais. Com ele foi-se embora também o afogador, antes usado para
enriquecer a mistura ar-combustível com o motor frio, papel que a
injeção faz sozinha. E, ao contrário do que alguns acreditavam, o
sistema eletrônico mostrou-se confiável a ponto de reduzir o risco
de ficar na estrada por defeito.
Chave - Primeiro foi o controle a distância de travamento,
que dispensou inserir a chave na fechadura. Depois surgiu a chave
presencial, que pode ser mantida com o usuário (no bolso, por
exemplo) enquanto as portas são destravadas e o motor é ligado, em
geral por botão. Em alguns modelos não se precisa nem mesmo abrir a
tampa do porta-malas, que se destrava e levanta com um "chute no ar"
abaixo do para-choque traseiro. |
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Estepe - Carregar no porta-malas um pneu grande, pesado e
caro por toda a vida está menos comum. Vários carros usam estepe
temporário, restrito a emergências, mas há soluções mais ousadas
para descartar de vez a troca do pneu furado na rua. Importados como
os da BMW aderiram aos pneus run-flat, capazes de rodar por certa
distância (100 quilômetros, por exemplo) em velocidade moderada sem
nenhum ar. Outros, como o Peugeot RCZ, trazem selante para tapar o
furo e compressor para encher o pneu. O que ainda é problema é um
dano extenso à roda e ao pneu, nada improvável nesse esburacado
Brasil.
Faróis de longo alcance - Em geral circulares e conhecidos
como "faróis de milha", foram uma febre nos anos 80, quando Ford
Escort XR3 e VW Gol GT/GTS/GTi os traziam de fábrica. Na época os
faróis principais eram um tanto limitados, o que justificava o
auxílio em estradas sem tráfego oposto. Com faróis mais eficientes —
como os de refletor duplo de
superfície complexa — e sobretudo
com as lâmpadas de xenônio, não há
mais sentido em ter unidades auxiliares, salvo para neblina.
Marcador de temperatura do motor - Anos atrás ele refletia
pequenas variações, a ponto de se visualizar o efeito do acionamento
da ventoinha. Já os atuais termômetros permanecem em um ponto médio
por horas a fio e só sobem — rápido — para a faixa de atenção quando
a temperatura supera os níveis seguros. É o mesmo momento em que uma
luz-piloto, mais barata, acenderia. Por isso, até alguns carros de
luxo já eliminaram o mostrador.
Pedal de embreagem - O novo Porsche 911 só vem ao Brasil com
o câmbio automatizado PDK. No Ferrari 458 o manual foi abolido em
âmbito mundial, já no lançamento, e o mesmo ocorre por aqui com
quase todo modelo de alto preço. Fácil entender por quê: com o
avanço dos automatizados, como os de
dupla embreagem, e das caixas automáticas (que já chegam a oito
marchas e ganham eficiência a passos largos), há cada vez menos
interesse pelo câmbio manual, com seu pedal de embreagem
inconveniente no tráfego pesado. Os automatizados já conseguem
melhor aceleração que os manuais, razão para que até os carros
esporte os adotem de série.
Toca-CDs - Ainda equipa quase todos os carros, mas tende a se
tornar raro. Depois que o formato compactado MP3 entrou no cotidiano
de pessoas de todas as idades, o CD tradicional perdeu apelo. Hoje,
há tantas conexões nos aparelhos — para toca-MP3 portátil, pendrive,
cartão de memória e telefone celular — que a mídia digital tomou
conta dos automóveis e, para muitos, o toca-CDs não serve mais para
nada.
Vareta de medição de nível de óleo - Há mais de 10 anos,
alguns acessíveis Peugeots já traziam mostrador no painel que
dispensava checar o nível pela vareta, com sua propensão a erros de
leitura. Contudo, talvez por questão de confiabilidade, o método
tradicional ainda é o mais comum nos automóveis, desafiando o passar
do tempo. Corremos o risco de vê-la até que não haja mais óleo nos
motores... que terão sido substituídos pelos elétricos.
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Os termômetros
permanecem em um ponto médio por horas a fio, e só sobem quando a
temperatura supera os níveis seguros |