O protesto e as carruagens

Quando a rainha triplicou o imposto para as importadas, os súditos
tomaram medidas drásticas em defesa da livre concorrência

por Fabrício Samahá

Fabrício Samahá, editor

Nossa história se passa em um antigo reino, séculos atrás, quando o automóvel ainda não havia sido inventado e as pessoas se locomoviam, em geral, em carruagens puxadas por cavalos. Era um grande reino, com extensões continentais, o que fomentava a demanda por mais e mais carruagens, já que outras alternativas de transporte estavam longe de satisfazer à população.

Quatro construtores de carruagens, unidos na Ancovea (Associação Nacional dos Construtores de Veículos de Tração Animal), dominavam o mercado. Não que apenas essas empresas fizessem carruagens no mundo: é que naquele reino, por alguma razão difícil de entender, era proibido importá-las. Naturalmente, essa restrição tornava as coisas confortáveis para aqueles construtores.

Não importava o que oferecessem ao mercado, havia demanda, mesmo que as carruagens estivessem superadas ou não fossem de alta qualidade. Como exemplos, a empresa Carruagem do Povo usava suspensões desconfortáveis e cabines mal-acabadas, enquanto a Carruagens Gerais, para aumentar os lucros, vendia veículos puxados por cavalos velhos, que andavam devagar e comiam muito capim.

Um dia, o rei experimentou uma bela carruagem vermelha feita em outra região, com puros-sangues velozes e o logotipo de um cavalo empinado. E veio dizer ao povo que ele — não o rei, mas o próprio povo — estava nu. Segundo suas palavras, naquele reino só se faziam... carroças.

Mais que pela conclusão, que já era de conhecimento geral, o rei ganhou popularidade pela ordem que deu em seguida: dali em diante, seus súditos poderiam importar carruagens de onde desejassem. As portas do mundo estavam, afinal, abertas. Claro que isso não sairia barato: foi definido um IIC (Imposto de Importação de Carruagens) de 85%, ao qual se somavam dezenas de outros tributos. No reino, o que não faltava eram impostos, taxas e contribuições ao rei — já que alguém precisava sustentar a máquina estatal, ou melhor, real.

O povo, mesmo escorchado pelos impostos, comemorou. Chegaram carruagens modernas ou nem tanto, simples ou sofisticadas, de reinos próximos ou dos mais distantes — até uma de origem russa —, e a paisagem das ruas e estradas do reino se tornou mais variada. As empresas que vieram de fora se organizaram na Areiva, Associação Real de Empresas Importadoras de Veículos de Tração Animal.

Os quatro tradicionais construtores, para manter seu mercado, renovaram suas carruagens com cabines mais espaçosas e bem-acabadas, suspensões mais confortáveis, cavalos mais dispostos e sem tanto apetite pelo caro capim (sim, o capim no reino também era severamente tributado). Empresas de outros locais foram se instalar no reino, interessadas em um mercado que crescia com rapidez — cada vez mais pessoas podiam comprar uma carruagem, ainda que muitas empenhassem excessiva parcela de sua renda nos pagamentos mensais.

Preocupadas com a perda de sua hegemonia, as empresas mais antigas tiveram uma ideia. Em parceria com os produtores de grãos, convenceram o povo de que novos cavalos, que comiam tanto capim quanto farelo, eram muito melhores que os antigos, alimentados apenas com capim. "Agora você pode escolher", anunciavam, acrescentando o argumento ambiental de que as — digamos — emissões poluentes dos cavalos seriam reduzidas com o novo alimento. De repente, todos no reino queriam os chamados cavalos Flex Food, ou flexíveis em alimentação.

Foi um grande estímulo para as vendas de carruagens nacionais. Os construtores recém-chegados, que traziam animais de outras origens para puxar suas carruagens, e os importadores saíram perdendo: ninguém mais dava valor a cavalos não flexíveis, embora eles comessem menos e andassem mais entre as paradas para se alimentar que os Flex Food. A rejeição durou alguns anos, até que também as associadas à Areiva oferecessem carruagens com tais cavalos.

O mais curioso é que, depois que os animais Flex Food tomaram conta das ruas, os produtores de farelo elevaram muito seu preço e, por todo o reino, só se viam cavalos comendo capim... como em outros tempos.

Novos concorrentes
Cerca de 20 anos passaram-se desde a abertura do reino às carruagens importadas. Os famosos quatro construtores, que em outras épocas vendiam com facilidade, enfrentavam agora novos concorrentes. Havia as carruagens coreanas, com cabines modernas e cavalos que comiam pouco, e as chinesas, bem-equipadas a preços atraentes — embora muitos desconfiassem da robustez de seus cavalos para as severas condições de uso praticadas no reino.

Apesar da concorrência, os construtores "nacionais" — assim chamados embora fossem procedentes de outros reinos, para onde enviavam os lucros — não vinham se defendendo à altura. Em termos de tecnologia, acabamento e eficiência, suas carruagens estavam bem aquém das importadas, embora tivessem cabines com frisos e adornos, cavalos mais decorados e rodas cujo desenho mudava a cada dois anos
— segundo uma das empresas, "para atrair o cliente no momento exato em que ele termina de pagar pela carroça anterior".

A maior novidade dos últimos anos eram as carruagens "aventureiras", com cabine mais alta, rodas maiores e uma ameaçadora barra frontal de madeira, mas que atolavam com a mesma facilidade das convencionais.


Reunidos na Ancovea, os construtores protestavam. "Nossos concorrentes vendem carruagens feitas com mão de obra escrava!", bradava um dos empresários. "Elas são puxadas por pôneis malditos", exaltava-se o dono da Carrossan. "Vamos ter que demitir pessoal se continuar essa importação desenfreada", ameaçava o da Carruagem do Povo. "Ninguém mais quer nossos cavalos velhos. Estamos com os pátios cheios!", reclamava o proprietário da Carruagens Gerais.

"A rainha deve tomar providências!" — gritaram, em uníssono.

O que os associados à Ancovea não diziam, embora estivesse à vista do povo, é que eles mesmos vinham trazendo milhares de carruagens e cavalos de outros reinos sem pagar o IIC, baseados em acordos comerciais como o Mecresul, o Mercado Comum dos Reinos do Cone Sul. Se carruagens importadas respondiam por "preocupantes" 20% das vendas do reino, três quartos dessa parcela cabiam a importações dos próprios construtores da Ancovea. As outras empresas, ligadas à Areiva, detinham apenas 5% das vendas.

E a Ancovea não importava só carruagens de luxo. Alegando que era muito caro construí-las no reino, os empresários já traziam as de todos os segmentos. O caso mais extremo era o da Carrossan, que começava a trazer de fora uma nova carroça do tipo 1.0. Tracionadas por pôneis de baixa capacidade, que mal conseguiam subir ladeiras, as 1.0 eram um equívoco criado por incentivos fiscais.

Gerar empregos no reino? Ora, isso não era relevante. Servia apenas como discurso para pressionar a rainha a atender sua demanda.

Pois a autoridade maior do reino, em reunião no castelo com seus subordinados e representantes da Ancovea, decidiu: a partir do dia seguinte — sem o habitual prazo para entrada em vigor —, as carruagens importadas teriam de recolher uma alíquota triplicada do IPA (Imposto sobre Produtos Artesanais). Para surpresa geral, as empresas instaladas no reino continuariam a trazer carruagens de reinos participantes de acordos comerciais sem pagar o IPA adicional. Uma grande rasteira nos demais importadores!

Seguiram-se grandes protestos, tanto da Areiva quanto dos súditos, já acostumados à saudável concorrência entre carruagens nacionais e importadas. E o que aconteceu depois surpreendeu a todos.

Unido, o povo do reino deixou de comprar carruagens por vários meses. Preferiu manter as antigas, trocar ferraduras gastas, consertar rodas quebradas — e como havia buracos nas estradas do reino! — e tratar os cavalos que adoecessem após comer farelo adulterado, outro grave problema por lá. Ninguém ficou a pé por não trocar sua carruagem azul por uma verde (naquele reino, por alguma razão, só havia carruagens dessas duas cores) ou por manter seu cavalo a capim em vez de comprar um Flex Food.

Na Areiva, as importadoras de carruagens viviam sérias dificuldades. Muitas já haviam fechado as portas, desistindo de um reino que queria crescer, mas não mostrava seriedade nas relações internacionais. Na outra associação, a Ancovea, anunciavam-se seguidos prejuízos e percebia-se que a manobra para dominar o mercado não havia dado certo. Os súditos da rainha mostravam que não eram bobos: sabiam lutar por seus direitos.

Nossa história termina com uma grande vitória. Pressionada pelos protestos, a rainha anunciou o fim da penalização aos importadores. Os súditos, respeitados, suspenderam o boicote. Voltaram a comprar carruagens nacionais e estrangeiras, as empresas renovaram seus produtos, os preços caíram como resultado da concorrência. Os construtores locais continuaram lucrativos e outros chegaram para montar veículos ali, confiantes na seriedade que se vislumbrava.

Desde então, nunca mais se ouviu falar em "proteger a carruagem nacional" naquele reino. A lição foi aprendida.

Os quatro construtores, que em outras épocas vendiam com facilidade, enfrentavam agora as carruagens coreanas e chinesas

Colunas - Página principal - Envie por e-mail

Data de publicação: 24/9/11

© Copyright - Best Cars Web Site - Todos os direitos reservados - Política de privacidade