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De sustos e retrovisores

Edição no. 110 - 3 de novembro de 2001

Em uma de minhas freqüentes viagens de Pindamonhangaba, onde resido, à capital paulista, fui surpreendido pela motorista de um Kadett que trafegava a meu lado, poucos metros à frente, e que decidiu escapar do trânsito denso e algo lento pela Rodovia Ayrton Senna tomando uma faixa mais rápida, à esquerda -- a minha. Não houve conseqüências, além de um alerta com a buzina do Toyota RAV4 que eu dirigia e certo susto da motorista do Kadett, mas nascia ali o tema de mais um editorial: retrovisores.

Não se trata de apontar o não-uso dos espelhos em ultrapassagens e mudanças de pista por muitos motoristas. A senhora do Kadett parecia atenta ao trânsito e provavelmente olhou pelo retrovisor esquerdo antes da manobra -- só que esse espelho, em muitos automóveis, possui um campo visual bem menor do que o tráfego rápido e denso de nossos dias exige. E por uma simples razão: a lente plana.

Você certamente sabe a diferença entre o espelho plano e o convexo: este equipava o retrovisor direito de todos os automóveis com que tive contato até hoje, embora haja raríssimas exceções (como o Nissan Maxima em certo período, certamente por erro de especificação do importador brasileiro). O objetivo é ganhar em campo visual, mesmo com a desvantagem de obter uma imagem reduzida dos objetos e veículos. Por conta desta redução, nos Estados Unidos todo retrovisor direito convexo traz gravada a advertência de que "os objetos refletidos estão mais próximos do que parecem".

Já o espelho esquerdo convexo, embora ganhe espaço em diversas marcas, ainda não é maioria nos carros nacionais -- entre eles o Kadett, que terminou seus dias com lente plana. Surgiu com o Vectra e o Fiesta, em 1996, sendo mais tarde adotado em modelos como Ka, Escort, Focus, Golf, A3, Brava/Marea e a linha Palio (exceto Young). Motocicletas e carros de corrida tipo fórmula, inclusive F1, também o utilizam.

Seu benefício é propiciar ampla visão do que ocorre ao redor do veículo e, em especial, permitir que se acompanhe o tráfego à esquerda, esteja-se trafegando pela mesma estrada ou acessando-a em ângulo, sem a necessidade de movimentar-se à frente no banco. A Ford chegou a planejar para o Fiesta um espelho com raio no padrão europeu, de 1.000 mm (bastante curvatura), mas optou por utilizar raio de 3.000 mm, diminuindo o efeito-lente.

Para alguns aqui no BCWS -- como eu e nosso colunista Bob Sharp, sempre muito considerado neste tipo de artigo por sua vastíssima experiência no mundo do automóvel --, o retrovisor convexo é insubstituível. Tanto que Bob chegou a solicitar ao fabricante dos equipamentos a confecção de um desses espelhos, com ajuste elétrico e desembaçador, para o lado esquerdo do Omega que dirigia quando Gerente de Imprensa da General Motors.

Uma alternativa mais simples é mandar recortar o grande espelho direito de um picape na medida e formato de seu automóvel. Foi o que Bob fez, a partir de um retrovisor de D-20, em uma oficina especializada em Moema, na capital paulista, para o Kadett que possui em casa.

Para Bob e eu, melhor que o convexo só mesmo o asférico ou biconvexo, aquele em que uma faixa na extremidade externa do espelho acentua o efeito de ampliar o campo visual. Este tipo, adotado no Golf e Palio, por exemplo, é usado também no retrovisor direito pela BMW, prova de que contribui para a segurança.

No entanto, há os defensores do velho retrovisor plano. Um deles -- um colega jornalista, que muito respeito como amigo e como profissional -- alega que o espelho convexo prejudica a noção de distância do carro que vem atrás. O convexo, portanto, exigiria adaptação do motorista para evitar "fechadas", exatamente pelo efeito de redução da imagem advertido nos carros norte-americanos.

Aliás, os Estados Unidos proíbem esse tipo de lente no retrovisor esquerdo, enquanto os europeus os utilizam em larga escala -- mas até na Europa há quem prefira o plano, o que motivou a Audi a oferecê-lo como opção no novo A4, conforme informa seu material de divulgação. Pois seria o caso de dizer que, uma vez habituado ao convexo, o motorista precisa de uma boa adaptação para acostumar-se novamente à lente plana. É o que percebo a cada mudança de tipo de espelho entre os automóveis que avalio para o BCWS.

Um retrovisor convexo evitaria o susto da motorista do Kadett relatado acima? É possível. Mas nosso intuito aqui é promover o debate entre os leitores para, quem sabe, motivar os fabricantes a adotá-lo com maior freqüência. E o leitor está convidado a manifestar-se em nossos Grupos de Discussão.

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