


Telefone celular com comando de
voz, memória dos ajustes de direção e suspensão, interior refinado:
conforto ainda era o destaque do Lincoln


Sem identidade de estilo e pouco
atraente diante dos europeus ou até do Cadillac CTS, o Continental
encerrou a carreira de maneira discreta |
Embora fosse o mesmo propulsor de duplo
comando no cabeçote usado no Mark, a posição de montagem implicou
mudanças no escapamento que lhe tolheram 20 cv. Ainda assim, eram 260 cv
para lidar com os 180 kg extras. A Lincoln bem que tentou controlar o
sobrepeso adotando capô, para-lamas e tampa do porta-malas de material
composto mais leve. Mas os reforços estruturais do modelo, que
aprimoravam em 40% sua rigidez torcional, traziam esse efeito colateral.
Câmbio e suspensão mantinham a tecnologia de antes.
Ainda que a frente e a traseira mantivessem identificação com o universo
Lincoln, a carroceria como um todo — embora moderna e agradável — poderia vir
de qualquer
marca de Detroit e até para boa parte das japonesas, que começavam a
explorar o segmento de luxo. Concorrentes como o Seville e o Acura
Legend tinham uma identidade de marca equivalente, mas com desenho mais
esbelto. O Continental aparentava os quilos a mais que tinha. Ousado
mesmo era o Aurora, que não conseguiu
salvar a Oldsmobile. Entre as novidades mais interessantes do
Continental estava o
sistema eletrônico que memorizava as regulagens de suspensão
e direção, além da posição de bancos (com ajuste lombar) e de retrovisores e
as estações de rádio. No interior, outro destaque eram os
instrumentos apenas projetados numa tela do painel e o telefone celular
opcional acionado por voz. Havia controle de tração opcional e vários
outros recursos, velhos conhecidos de quem acompanhava sua evolução.
Em 1996 o controle de tração passou a vir de série. No ano seguinte a
suspensão a ar foi abandonada e, para 1998, vieram uma frente
discretamente renovada e um par de lanternas em substituição ao elemento
único que as agrupava. Bolsas infláveis laterais dianteiras de série
chegaram em 1999, quando o motor foi retrabalhado para render mais 15
cv. Desse ano-modelo em diante, o Mark VIII não voltou mais a fazer
parte da linha. A Lincoln lançava para 2000 o atraente LS, com motores
V6 e V8, estilo bem mais moderno e plataforma compartilhada com o Jaguar
S-Type — conjunto que ofuscaria as qualidades do Continental. As vendas
do único Lincoln de tração dianteira vinham caindo desde 1998. Com
revestimentos de couro e camurça e rodas cromadas, a Collector's Edition
de 2002 mais uma vez deu a chance aos admiradores de adquirir a última
safra do mais memorável modelo criado pela Lincoln. Em sua sétima década
de mercado, o Continental não voltaria a constar no catálogo da marca
para 2003.
O novo milênio trouxe a Detroit uma tendência de aposentar nomes com longo valor
histórico, deixar o século XX para trás. O problema é que, desde então,
a Lincoln não criou qualquer produto que conseguisse roubar a cena no
mercado de luxo, como fez o Continental nas gerações de 1940, 1956 e
1961, por exemplo. Mais uma evidência de seu prestígio recorrente dentro
da Lincoln é a frente de seus modelos atuais, com grade bipartida e um
ressalto central. Essa tentativa de associar novos produtos ao estilo
clássico do modelo 1940, a obra-prima de Edsel Ford, é encontrada nos
modelos MKS,
MKZ e
MKT. Qualquer um deles possui um estilo que serviria para
fabricantes sem a metade da tradição da Lincoln, como as marcas de luxo
asiáticas. A mecânica pode ser boa, mas ainda não é brilhante. Ainda
falta o tipo de ousadia que Edsel demonstrou com aquela variação do
Zephyr em 1939.
Resta torcer para a Ford ter aprendido tudo o que precisava, com seus
erros e acertos, e fazer valer a decisão de manter sua divisão
norte-americana de luxo, apesar da recente crise em Detroit. Sem Jaguar
nem Aston Martin debaixo de seu guarda-chuva, a Lincoln é o que de mais
sofisticado a companhia possui hoje. Enquanto houver a memória do
Continental para servir de inspiração, a Lincoln terá uma nítida
referência para visionar carros que não só atendam ao mercado — como o
Continental desde 1980 —, mas o norteiem. Seja pelo estilo arrebatador
da primeira, segunda ou quarta geração, seja pelo rico catálogo de
equipamentos ou pelos motores à altura, o Continental foi mais que um
automóvel.
Ele era um ícone. E continua sendo, por
mais que carros imensos movidos por V8 sedentos de gasolina dificilmente
voltem a dominar as ruas e estradas norte-americanas. Não é isso que o
Continental inspira. Mais que nostalgia, sua lembrança emana o desejo de
alcançar prestígio por surpreender.
Nada mais doce que o sabor da glória
conquistada sem sequer se pretender.
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