No Omega australiano o freio de estacionamento fica à direita, junto do motorista, mas a posição é mantida na versão de exportação, tornando-se inadequada

Portas que não sejam simétricas também trazem complicações, embora menores. Assim como as vans japonesas nas Filipinas, por boa parte do planeta rodam utilitários esporte orientais (mesmo coreanos, que costumam seguir o padrão nipônico) com a tampa traseira articulada no lado direito. O vão de acesso fica voltado à calçada nos países de mão esquerda, mas assume uma posição inadequada onde se dirige pela direita. No Brasil, o Ford EcoSport é uma exceção por ter sido desenhado aqui.

Os limpadores de pára-brisa são outro item que requer mudança conforme a posição do volante, pois o lado do motorista sempre tem prioridade na área de varredura. Nesse sentido, sistemas como os de Honda Civic, Peugeot 307 e algumas minivans, em que os braços são opostos e conseguem uma varredura praticamente simétrica, facilitam a vida do fabricante. Mas as empresas não escapam de uma convenção: a alavanca de luzes de direção fica à direita do volante no Japão e na Austrália; já os ingleses a preferem no lado esquerdo.

A questão chega a detalhes que poucos percebem. Na circulação à direita, o ideal é que a tampa do tanque de combustível fique desse lado, e o terminal do escapamento, do outro — menos vulnerável a impactos com o meio-fio em manobras de estacionamento paralelo a ele.

Pois se nota o contrário na maioria de carros de origem japonesa ou mesmo inglesa, este o caso de alguns Fords nacionais. Também nesta marca há miolos de fechadura que requerem girar a chave no sentido oposto ao usual, por causa da procedência britânica.

A inversão do volante pode, ainda, deixar alguns comandos um pouco estranhos. No Omega trazido da Austrália a alavanca do freio de estacionamento permanece à direita do console central, tornando-se mais adequada ao uso pelo passageiro, e o botão principal do rádio está no mesmo lado, pois ambos foram previstos para o volante do lado oposto ao nosso. Já as carcaças dos retrovisores, voltadas a quem se senta no banco da direita, não alojam bem os espelhos quando eles são ajustados para o motorista daqui. E há alguns anos, em que a Holden (GM australiana) aplicava um compressor ao motor V6, a versão era incompatível com volante à esquerda.

Será que um dia essa dificuldade deixará de existir? Pode ser que sim, mas alguns fabricantes têm procurado contorná-la com tecnologia. Sistemas by wire (por fios, sem conexões mecânicas) para direção, acelerador e freios já tornam possível, em carros-conceito, alterar facilmente a posição do volante conforme a convenção local, como mostrou a GM no Autonomy. Pode ser o caminho.

Dirigindo do outro lado
Minha experiência de dirigir como os ingleses, com volante na direita, ocorreu em 1992 em duas oportunidades, ambas na Inglaterra. Uma, num programa organizado pela Land Rover, para avaliar o Defender e o Range Rover; outra, uma reportagem com o protótipo do Ford Fiesta com motor a dois tempos de tecnologia Orbital, australiana. Na época eu era editor técnico de Quatro Rodas.

Antes disso, em 1988, quando eu era supervisor de competições da Volkswagen, meu chefe buzinou defronte a meu escritório chamando-me para irmos dar uma volta num Santana: era uma versão de direção na direita que havia ficado no pátio da fábrica sem destinação — uma sobra, como se diz na indústria. Essa foi minha iniciação no jeito inglês de dirigir, mas infelizmente uma volta muito curta, dentro da fábrica.

Com essa "experiência prévia", sentei-me ao volante do Defender nas imediações de Solihull, onde ficava o campo de provas fora-de-estrada da Land Rover, próximo à fábrica. E já saí pegando tráfego normal.

Fácil, não é, mas também não é um bicho de sete cabeças. Para quem nunca se sentou num carro com direção à direita, os pedais são dispostos como nos veículos "normais", com embreagem, freio e acelerador da esquerda para a direita. Assim, nenhuma dificuldade nesse ponto.

A alavanca de câmbio (no assoalho) tem as mesmas posições de engate das marchas, elas não são em espelho. Desse modo, para engatar a primeira, empurra-se a alavanca para a esquerda, afastando-a do motorista, e depois para cima. É um tanto estranho no começo, pois aqui se traz a alavanca a nosso encontro. Imagine passar a quinta: tira-se da quarta, puxa-se a alavanca para nosso lado e depois para cima. Mas logo se pega o jeito e garanto que não é pelo fato de eu ser canhoto.

A grande dificuldade fica para o cálculo de distância entre o lado esquerdo do veículo e algum objeto. Imagine o leitor a corriqueira situação de se alcançar um ciclista e ter de passar por ele. Fazemos isso quase que com os olhos fechados.
Agora, sentados à direita, com aquele enorme espaço à esquerda dentro do carro e ainda tendo de calcular o espaço entre veículo e ciclista, é mesmo complicado no começo. Uma dificuldade menor, mas real, é estacionar ao longo do meio-fio, na mão de direção correta. Se aqui tem vezes que erramos, é fácil adivinhar como complica quando é "ao contrário".

Mas em todo o resto da condução ajuda bastante o fato de tudo lá ser ao contrário do que é aqui, em espelho, de modo que a adaptação é rápida. Atenção é necessária, claro, como ao chegar numa rotatória e ter de entrar nela pela esquerda, observando o tráfego que vem da direita. Ou sair da avenida em que estávamos, para pegar uma rua à direita, e termos de posicionar o carro no que seria nossa contramão. Também, ao ouvir uma buzinada atrás, precisamos lembrar de voltar os olhos para a esquerda, não mais à direita.

O mesmo vale para as ultrapassagens nas pistas de mão dupla. Você está sentado mais para o meio da pista e a manobra é tão simples quanto aqui. O problema sério, isto sim, é dirigir um carro de direção direita em países de mão desse lado como o nosso, pois ao procurar ultrapassar é preciso expor muito o carro ao fluxo contrário. Chega a ser perigoso.

Trafegando numa motorway, ou auto-estrada, deve-se ficar sempre o mais à esquerda e, quando ultrapassar, fazê-lo pela direita. Estranha-se no começo o tráfego mais rápido ultrapassando-nos pela direita. Mas tem muito brasileiro que "compra a esquerda" aqui, de modo que não teria nenhuma dificuldade em dirigir lá...

Pode o leitor acreditar: aprendemos mais rápido do que parece. Após passar três dias no tal programa da Land Rover, tomei um avião para a França para comparecer a um programa da Peugeot. Ao me dirigir para o Peugeot 405 T16 de tração integral estacionado defronte do aeroporto de Nîmes, me dei conta que estava indo para a porta direita. Ainda bem que não entrei...

Bob Sharp

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